Prevendo bolhas na economia

por Igor Zolnerkevic em 21/05/2010

Bolhas de sabão. Foto de Steve Juverston. Fonte: Wkimedia Commons

Steve Jurvetson (Wikimedia Commons)

Na última reportagem que escrevi para a revista, a capa da edição de maio (leia aqui, em pdf), fiz um apanhado das ideias de um grupo marginal, mas crescente, de físicos e economistas que culpa a confiança cega nas teorias clássicas da economia pelas recorrentes crises financeiras mundiais.

Para eles, a economia precisa de uma “revolução científica“, um novo jeito de pensar e formular modelos, mais semelhante ao método das ciências naturais, baseado em experimentação e observação. Buscam uma espécie de “física” da economia, que vem sendo chamada de  “econofísica”.

Comecei a reportagem citando um exemplo recente de experimento nesta área, coordenado por um cientista nem um pouco modesto. Só para relembrar:

Se você perdeu dinheiro na bolsa nos últimos seis meses, talvez queira tirar satisfação com o físico Didier Sornette, coordenador do Observatório de Crises Financeiras do Instituto Federal Suíço de Tecnologia (ETH, na sigla em alemão), em Zurique. Como um meteorologista que percebe sinais de uma tempestade a caminho, Sornette afirma que observou quatro bolhas financeiras se formando no horizonte do mercado global durante esse período. Mas em vez de alarmar o mercado e, portanto, interferir em seu objeto de estudo, ele passou os seis meses quietinho em seu “observatório”, verificando se seu modelo matemático poderia mesmo identificar o início de bolhas e prever quando elas explodiriam.

(…) Em seu experimento sigiloso iniciado em 2 de novembro do ano passado, ele e sua equipe monitoraram o sobe-e-desce dos preços de vários bens ligados a ações negociadas mundialmente. Eles identificaram nos valores de quatro deles uma taxa de crescimento que seu modelo matemático identificou como uma bolha. As previsões de Sornette foram guardadas confidencialmente pelo ArXiv, um servidor on-line público de artigos científicos, e seriam divulgadas dia 1º de maio, infelizmente, depois do fechamento desta edição.

Arrisquei-me a escrever que as tais bolhas de Sornette eram reais, mas que ele não conseguiria prever quando elas estourariam. Bem, minha previsão se confirmou parcialmente, pelo que pude ver nos resultados divulgados no dia 3 de maio em uma entrevista coletiva no ETH.

Pensei que estas evidências fossem atrair a atenção da imprensa, mas encontrei apenas um breve comentário no Financial Times referindo-se às pequenas bolhas previstas pelo cientista – na verdade foram subidas e quedas abruptas nos preços de uma magnitude que interessa apenas a investidores de curto prazo.

É compreensível. Jornalistas econômicos têm muito mais o que escrever — os reflexos do crash da economia grega, o medo do contágio em outros países europeus, a inflação do mercado imobiliário brasileiro ou chinês. É complicado parar tudo para entender o que a física e a matemática têm a ver com esses problemas. Além disso, é mesmo difícil se interessar por pequenas bolhas quando outras bem maiores estão fazendo estragos por aí.

O que Sornette e outros físicos frisam, porém, é que as causas das grandes crises financeiras são as mesmas das pequenas. Aprender a identificar e prever bolhinhas, portanto, ajudaria a identificar e prever bolhões. A hipótese dele, baseada em 15 anos de estudos, é que em ambas as situações é possível observar duas “impressões digitais matemáticas”.

A primeira se revela como um crescimento “superexponencial” provocado pela expectativa exagerada de investidores que esperam retornos cada vez maiores. A segunda é um aumento na frequência com que os preços sobem e descem, causado pela crescente desconfiança dos que suspeitam que os valores não se manterão altos por muito tempo.

A vantagem de estudar bolhas pequenas é que elas ocorrem com muito mais frequência. Isso gera uma abundância de dados e, logo, mais chances para os pesquisadores aprenderem com seus erros.

Vamos aos resultados de Sornette. Em novembro passado, ele começou a monitorar em tempo real vários preços de mercadorias e índices de mercado, buscando  impressões digitais de uma bolha que tivesse duração máxima de seis meses.

Encontrou quatro candidatos: o índice Ibovespa, o índice corporativo Merrill Lynch, o preço do ouro negociado no mercado “spot” e o preço dos contratos futuros do algodão. Depois, com base num modelo matemático, determinou com que probabilidade essas quatro possíveis bolhas iriam estourar em um certo intervalo de tempo.

Os dados apontavam para um risco de 95% de uma bolha surgir e logo estourar no índice Ibovespa entre 19 de outubro e 17 de dezembro do ano passado.  Análise posterior mostrou que ela realmente existiu, mas estourou duas semanas depois do intervalo esperado (veja gráfico abaixo).

Dados observados pelo experimento de bolhas da Ibovespa Variações do índice Ibovespa observadas durante o experimento. A queda mais acentuada no índice aconteceu 2 semanas depois do previsto (Fonte: Sornette, 2010)

No caso do preço do ouro,  o tiro foi mais certeiro: uma bolha nesse mercado se formou e estourou mais ou menos no tempo previsto.  Em compensação, um bolha no índice Merrill Lynch não foi claramente identificada enquanto ocorria.

A análise do preço do algodão foi a que teve o resultado mais nebuloso. Aparentemente já havia uma bolha antes de as observações começarem. E os pesquisadores suspeitam que ela ainda não tenha estourado A descrição completa dos resultados está disponível em inglês na página do Observatório de Crises Financeiras.

Sornette promete repetir o experimento nos próximos seis meses, usando agora um “índice de bolhas”, nova ferramenta matemática desenvolvida com a lições que aprendeu no primeiro experimento. Para chamar a atenção do público em geral e não apenas de um punhado de experts, porém, a econofísica ainda tem de comer muito arroz com feijão.

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