Até hoje recebendo cuidados adaptados com base em práticas de estádios europeus e até de clubes de golfe, nossos campos de futebol começam a ser objeto de estudos sistemáticos sobre as “interações grama-jogador-bola”
A reportagem é de Martha San Juan França. Leia texto abaixo ou veja a versão em pdf.
EM JULHO DO ANO PASSADO, a seleção brasileira foi vergonhosamente derrotada por 2 a 0 pelo Paraguai, em jogo das quartas de final da Copa América, realizado em La Plata, Argentina. Embora tivessem sido superiores aos rivais durante os 90 minutos da partida e também na prorrogação, na cobrança de pênaltis os brasileiros conseguiram errar os quatro chutes a que tinham direito. A culpa, segundo eles, foi do gramado. Na hora de chutar, o pé de apoio afundava demais no chão e a bola acabava indo parar bem acima do travessão, justificaram.
Que a qualidade do gramado pode influenciar o desempenho dos jogadores não é novidade. O que surpreende é o fato de a ciência e a tecnologia – que já fizeram tanto pela capacidade física dos atletas, pelo conforto e pela segurança dos estádios e pela transmissão dos jogos na TV – só agora estarem chegando à superfície verde onde de fato se desenrola o espetáculo.
A constatação é recente no mundo todo, mas no Brasil já se tornou urgente por causa da Copa de 2014. “Para que estádios que estão sendo reformados e construídos atendam aos parâmetros de qualidade exigidos pela Fifa, são necessárias mudanças nos gramados”, afirma o agrônomo Leandro Grava de Godoy, professor do câmpus experimental da Unesp em Registro, no Vale do Ribeira.
Pioneiro no Brasil nas pesquisas sobre gramas de aplicação futebolística, Godoy explica que o cultivo da planta está tradicionalmente associado ao paisagismo e à jardinagem, e não existem estudos sistemáticos sobre a “interação grama-jogador-bola”. Exceto na Europa, onde as pesquisas são feitas quase sempre com gramados artificiais.
A grama ideal para um campo de futebol depende de algumas características do terreno, prossegue Godoy. Ele deve ser liso e nivelado, de modo que os jogadores tenham segurança em seus movimentos, o que diminui o risco de quedas e lesões. Além disso, deve ser capaz de suportar o pisoteio e os estragos normais de um jogo, regenerando-se em tempo para a partida seguinte. Um dos pontos importantes de qualquer projeto nessa área é o estudo da base, formada pelo substrato da grama e, abaixo dela, pelo sistema de drenagem.
Nos tempos do futebol de várzea esta base era feita simplesmente de terra. Hoje, os gramados profissionais estão assentados sobre uma mistura de areia, argila e fertilizante, que garante a drenagem da água ao mesmo tempo em que ajuda a reter nutrientes, permitindo a manutenção do verde por mais tempo.
No entanto, as proporções mais adequadas de cada um desses componentes, de acordo com as variações regionais do clima, apenas começaram a ser investigadas. O mais comum é que elas sejam adaptadas com base no conhecimento adquirido sobre os campos de golfe.
Em se tratando de esportes tão diferentes, o resultado dessa adaptação naturalmente deixa muito a desejar. Numa partida de golfe, a grama é bem menos pisoteada. No futebol, o mix de areia e argila que sustenta a grama tem de ser mais complexo, em função das necessidades dos atletas. Se o chão for muito duro, a bola tende a quicar sem controle e levar a um passe errado. Se for muito macio, prejudica o arranque. Já se o substrato da grama for muito compactado, o efeito pode ser perigoso, facilitando contusões no tornozelo.
A grama propriamente dita também é importante. “Ela precisa ser uniforme, estar devidamente enraizada e ter crescimento vigoroso”, ensina Godoy. Traduzindo ao futebolês, tem de oferecer resistência na hora de o jogador arrancar na corrida ou parar para o drible, e sem voar pelos ares nos lances de maior impacto.
Sem segurar a chuteira
Além disso, a relva não pode estar emaranhada demais, sob o risco de segurar a chuteira e causar uma torção no joelho. O segredo está no plantio bem-feito para garantir aderência; na adubação e na iluminação adequadas; no bom escoamento de água e no corte preciso com uma máquina helicoidal, que mantém a grama sempre à mesma altura, explica o pesquisador.
Os gramados europeus parecem mais bonitos porque usam grama de inverno, de um verde mais intenso e mais resistente ao frio. No Brasil, a espécie de grama mais usada é a Bermuda (Cynodon dactylon), adaptada ao clima quente e da qual existem variedades melhoradas para práticas esportivas. É também a espécie mais usada nos países europeus mediterrâneos, onde passa o inverno adormecida. Por aqui, apesar de o frio não ser tão intenso, desde alguns anos tem-se praticado o chamado overseeding em alguns estádios que recebem os jogos da série A do Campeonato Brasileiro. A prática consiste em plantar sementes de inverno e de verão, para deixar o gramado mais resistente à queda de temperatura.
Em Porto Alegre, de clima mais temperado, o estádio do Grêmio, cuja construção deve ser finalizada até o fim do ano, terá um gramado reforçado com fibras sintéticas para ser mais resistente ao frio. Terá também um sistema suplementar de iluminação por causa da sombra projetada pela cobertura da arquibancada, explica o engenheiro agrônomo Daniel Tapia, que presta assessoria aos gramados do Morumbi, do Mineirão e do Monumental de Nuñez (em Buenos Aires), entre outros.
Recomendada pela Fifa, a arquibancada coberta – e a consequente sombra que ela projeta no campo – é um grande desafio para profissionais como Tapia. “A única grama que suporta bem a sombra é a de inverno, que aqui não aguenta o verão”, diz. “Durante as partidas em julho pode ser que o campo esteja adequado. Mas o que fazer depois com o calendário extenso de jogos durante o ano?” Antes de adotar práticas europeias, é preciso estudar as condições locais, argumenta ele.
É este tipo de estudo que Godoy, em parceria com o colega Roberto Lyra Villas Boas, do câmpus de Botucatu, vão começar a fazer em breve, por meio de dois projetos financiados pela Fapesp. Eles estão aguardando a chegada de equipamentos importados que vão avaliar a rolagem e o quique da bola, a resistência e a dureza à chuteira em cinco campos de futebol profissional com características diferentes, bem como analisar questões específicas, como o efeito do corte, da infiltração de água, da profundidade da raiz, na qualidade do campo e do jogo. “Nosso objetivo é estabelecer índices que possam servir de padrão”, afirma Godoy.
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