‘Amazônia paulista’ (sim, isso existe)

por Luciana Christante em 07/07/2011

Antonio Camargo (no leme), seu orientado Leonardo Cancian e a repórter

Antonio Camargo (no leme), seu orientado Leonardo Cancian e a repórter

Não consigo imaginar alguém dando piruetas de alegria se ganhasse uma viagem com tudo pago para o balneário de… Itanhaém. Para os não familiarizados com a geografia bandeirante, é uma cidade do litoral sul do Estado de São Paulo, entre os municípios de Mongaguá e Peruíbe, entre a praia e um imponente paredão rochoso que a Serra do Mar exibe naquele pedaço. Chega-se ali depois de pouco mais de uma hora de carro, a partir da capital.

Itanhaém é um dos mais antigos povoamentos do Brasil, fundado pela turma do padre José de Anchieta em 1532. Lá o aventureiro alemão Hans Staden (1525-1579) chegou a nado após um naufrágio noturno, sendo pouco tempo depois raptado por índios tupinambás que o levaram para o norte e quase o jantaram.

A cidade tem muita história, mas lhe falta glamour. Além disso, sobram-lhe problemas de vários tipos, que se refletem num dos piores índices de desenvolvimento humano (IDH) da Baixada Santista – só perde para Cubatão.

Ainda assim, para quem se interessar em conhecer um trecho muito peculiar da Mata Atlântica, pode ser um destino surpreendente, de fácil acesso e barato. E pouco visitado. Lá se encontra a chamada “Amazônia paulista”.

Guardadas as devidas proporções, a analogia é a seguinte: tanto o rio Amazonas quanto o rio Itanhaém são formados por um afluente de água clara e outro, de água escura. No grande bioma do Norte, o “encontro das águas” ocorre perto de Manaus e atrai muitos turistas, por causa do contraste de cores, já que as águas do Solimões e as do Negro demoram muito a se misturar.

Em Itanhaém ocorre o mesmo fenômeno com os rios Branco e Preto, que formam o grande rio que dá nome à cidade. Ali, porém, o encontro deles é bem mais discreto, porque as águas do rio Branco são cristalinas, em vez de barrentas como as do Solimões.

Mas a explicação geológica para o que ocorre tanto em um lugar quanto no outro é exatamente a mesma (veja mais abaixo), como aprendi na viagem que fiz com o professor Antonio Camargo, da Unesp em Rio Claro, que estuda a bacia hidrográfica do rio Itanhaém há 20 anos e, antes disso, navegou muito pelos rios amazônicos como pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia).

Quando estive em Manaus há alguns anos, não curti muito o Solimões, confesso. Não só porque ele é caudaloso e lamacento, mas principalmente porque, toda vez que o barco parava, os mosquitos atacavam sem dó. Em compensação, me apaixonei pelo rio Negro, no qual o repelente não era item de primeira necessidade. Mais que isso, o céu e as margens da floresta refletidos no espelho d’água, que mal parecia se mover, formavam imagens que nunca quero esquecer.

De modo que, quando Antonio disse que íamos subir pelo rio Preto, e não pelo Branco, senti que estava com sorte. O tempo cooperou, havia muitas nuvens, mas que não escondiam o céu bem azul (pelo menos durante a manhã). Em pouco tempo elas se duplicaram, estampadas na lâmina d’água escura e serena, emolduradas pela mata densa e alta que nos acompanhava, de onde de vez em quando pássaros assustados com o barulho do motor do barco batiam em retirada.

Sossego pleno. E um rio que visivelmente esbanjava vitalidade. Um rio Negro em miniatura. “Caramba, onde é que eu estou? Isso não pode ser tão perto de São Paulo”, eu pensava. E meu espanto cresceu ainda mais quando vim a saber que o lugar não está protegido por nenhum tipo de unidade de conservação.

amazon paulista 2

Para explicar o que  faz o professor Antonio Camargo nesse lugar, escrevi o “estudo de campo” que está na edição deste mês. Aqui vou resumir a história das origens geológicas dos rios, que infelizmente não coube na matéria e é bem interessante.

Os terrenos por onde hoje passam tanto o rio Negro como o Preto são de origem marinha, ou seja, numa época muito longínqua, já sustentaram águas oceânicas. Isso faz com que os leitos de ambos sejam arenosos, oferecendo pouca resistência à passagem da água, que os atravessa facilmente até cair num lençol freático levando consigo nutrientes, como nitrogênio e fósforo. Na escassez desses elementos, as plantas que vivem nas margens precisam se proteger contra a fome. E o fazem desenvolvendo cascas mais grossas, para evitar a perda do pouco que conseguem captar no ambiente.

Como todo ser multicelular, as plantas produzem continuamente novos tecidos e dispensam os velhos. Assim, esse material cascudo e geralmente escuro – por causa de uma fibra vegetal chamada lignina –, uma hora acaba caindo na água. E não se decompõe facilmente, porque a carência de nutrientes não permite o desenvolvimento de muitos microorganismos, os responsáveis pela decomposição da matéria orgânica.

Portanto, esses restos de plantas cascudas ficam muito tempo em contato com a água, tornando-a escura e também ácida. Peixes e mosquitos não se interessam muito por ambientes pobres em nutrientes e levemente azedos, como os rios Negro e Preto. Preferem rios cuja formação geológica tenha origem continental, como ocorre com os rios Solimões e Branco. Com seus leitos argilosos, eles têm maior poder de reter a água e os nutrientes carregados por ela; resumindo, formam um ambiente menos estressante para as plantas (de casca mais fina) e mais apetitoso para a fauna aquática, inclusive os microorganismos.

E por que o rio Solimões é lamacento e o Branco cristalino, se ambos têm origem continental? Simples, porque o leito do último está cheio de pedras, que deixam a argila quietinha lá no fundo.

***

É possível fazer passeios de barcos pelos rios Itanhaém, Branco e Preto. Este site www.passeioturisticodebarco.com.br traz informações sobre dias, horários e roteiros. Talvez seja mais interessante ir fora da temporada. É mais uma opção na linha “fuja de São Paulo no fim de semana” ou mesmo para quem preferir fazer um “bate-e-volta”, já que são pouco mais de 100 km, por boas estradas.

Leia na edição de julho “Pelos rios da ‘Amazônia paulista’”, em pdf.

Fotos: Cristiano Burmester

{ 5 comentários… }

Mariana julho 27, 2011 às 3:45

Nossa, caí meio sem querer no site da Unesp por um outro artigo, e eis que vejo escrito “Amazônia Paulista” do lado, o que só podia ser uma referência a minha querida cidade. Achei que os rios, quando chegassem mais ao fundo, fizessem parte do Parque Estadual da Serra do Mar. Sei que demora um tantão pra essa área verde chegar na área da Serra mas pensei que essas áreas acabassem incluídas e assim, protegidas. Acredito que antigamente existiam muitos sítios de banana por esses lados do Rio Preto, então muitas áreas ao redor são de propriedade particular. Fiquei curiosa de saber: além do Preto e Branco, o professor Antônio Camargo pesquisa o rio Itanhaém? Sei que o rio estava com problemas de assoreamento na boca da barra. Também lamento que Itanhaém não seja valorizada e bem cuidada como deveria, com tanta história e belezas naturais como tem; mas que eu senti uma pontinha de ofensa quando você disse que nos falta glamour, isso eu senti! haha Um abraço.

Luciana Christante julho 27, 2011 às 8:52

Olá Mariana. Na pesquisa do professor Antonio Camargo há alguns pontos de coleta no rio Itanhaém, ele até comentou o problema do assoreamento na boca do rio, mas esse não é o foco da pesquisa. Sobre a falta de glamour, espero que você não tenha ficado chateada comigo, mas é verdade, não é mesmo? O que é uma pena para uma cidade com tanta história e belezas naturais, como você bem disse. Abraços!

Marília S. Ferreira julho 27, 2011 às 19:39

Olá, também sou moradora da cidade de Itanhaém e estudante de Biologia, fiquei contente em saber que um pouquinho de Itanhaém está sendo divulgado especialmente por suas belezas naturais. O Bioma todo é muito interessantes e infelizmente a área não é protegida e valorizada como deveria, porém por ser um tanto quanto desconhecida toda a área de mangue e leito dos rios permanece relativamente pouco impactada por influências humanas, as atividades da população ribeirinha hoje em dia são resumidamente apenas de pesca e o impacto mais abundante é o lixo jogado na água e o desmatamento de algumas áreas, impactos esses que poderiam ser combatidos com um pouco de educação ambiental e interesses políticos. Não sei se a cidade pode passar a ser mais charmosa porém ela está começando a crescer comercialmente e ter seus recursos naturais explorados, espero que isso seja um avanço positivo e que não venha a prejudicar o que ela tem de melhor a oferecer, a paz e o sossego do “mato”. Recomende Itanhaém como passeio, tenho certeza que ela tem muito charme a oferecer se você tiver um bom guia turístico. Abraço.

Cap.Roger agosto 2, 2011 às 18:44

Boa noite meu grande irmão….fico mt feliz em poder ler sua matéria e ver tanto conhecimento da area, realmente meus parabens pelo trabalho! Bom sou cmte de uma unidade de Força Especial chamados de Caveiras, ou seja, fazemos parte da Força Nacional de Resgate e da UNV (ONU). Atualmente estamos tambem naquela região uma vez ao mês, onde nossa finalidade é levar a ajuda médica voluntária em locais de dificeis acessos onde também temos nosso efetivo operando em Operações Noturnas. caso venha precisar de alguma coisa ou mesmo fazer contato me escreva no meu email ok? Fica aqui meu grande abraço Fraternal e meus parabens pelo trabalho!!!

Jamie Salcedo janeiro 22, 2013 às 11:32

obrigado pelo artigo! Passei algum tempo andando da Amazônia (estava estudando pigmentos flora através de um colorímetros ) e eu estava fascinado pela beleza do selva. Saudações.

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