Com base em relatos de mais de cem viajantes pouco estudados, livro de historiador de Franca mostra como essa literatura influenciou o olhar europeu sobre a América e questiona a tese central do clássico de Sérgio Buarque de Holanda. A reportagem é de Pablo Nogueira. Para ler o texto na íntegra, em pdf, clique aqui.
O general e ex-presidente da França Charles de Gaulle (1890-1970) era um homem de ação, não um acadêmico. Mas entre nós ele geralmente é lembrado como autor de uma célebre reflexão sobre o caráter brasileiro. “O Brasil não é um país sério”, teria dito de Gaulle em 1963 ou 1964, a depender da versão da história que se adota.
Desde os anos 1960, autoridades brasileiras e francesas negam que o general tenha alguma vez questionado a seriedade deste país. Apócrifa ou não, a frase incorporou-se de tal forma ao imaginário nacional que levou certa vez uma diplomata francesa a comentar: “o mais interessante não é saber quem a disse ou não, mas sim constatar que o Brasil a adotou como uma definição possível da sociedade brasileira”.
Muito antes que a seriedade do Brasil do século 20 fosse colocada em dúvida, porém, ideias e conceitos formulados originalmente por gringos já eram usados por nossa elite para refletir sobre as características e os problemas do país. Assim pensa o historiador Jean Marcel França, do departamento de História da Unesp de Franca, que está lançando o livro A construção do Brasil na literatura de viagem, pela Editora Unesp.
Fruto de uma pesquisa de quase vinte anos, a obra baseia-se em relatos de 117 viajantes ingleses, franceses, alemães, italianos e holandeses que visitaram o Brasil entre os séculos 16 e 18, período em que a presença de não portugueses aqui era controladíssima. O livro também reproduz, total ou parcialmente, textos de 28 aventureiros.
O uso de relatos de viajantes como fonte documental é tradicional na historiografia brasileira. O mais comum, entretanto, é que os historiadores recorram a um número pequeno de autores já bastante estudados, como o francês Jean de Lery ou o alemão Hans Staden, que aqui pisaram no século 16.
A principal novidade do livro de França é a apresentação de viajantes bem menos conhecidos, muitos deles traduzidos pela primeira vez em nossa língua. Outros foram vertidos ao português apenas no início do século 20, e depois esquecidos pela academia.
“Estes textos são usados como fonte de informações sobre características específicas do Brasil daquele período”, diz França. “Meu livro é um esforço para entender como a literatura de viagem construiu para o europeu uma perspectiva sobre o Brasil, que depois teve um enorme impacto na construção que o próprio brasileiro fez do Brasil.”
O trabalho do historiador da Unesp inspira-se, também, nas reflexões do colega mexicano Edmundo O´Gorman (1906-1995) sobre o real significado das viagens de Cristóvão Colombo.
Invenção da América
Embora Colombo sempre tenha estado convicto de que havia alcançado algum ponto do litoral da Ásia, com o passar do anos foi ficando claro, tanto para os espanhóis quanto para o restante da Europa, que aquelas terras não pertenciam a nenhuma região do mundo previamente conhecida.
“A América, como tal, literalmente não existia. Havia uma massa de terra que, com o tempo, será investida deste nome, deste ser”, escreveu O´Gorman. O que ocorreu após a viagem foi um processo de elaboração simbólica que resultou não na descoberta, mas sim numa “invenção da América” (título de um livro do mexicano) por parte dos europeus.
Para mapear qual foi esse Brasil inventado no imaginário dos europeus, o historiador de Franca busca identificar quais as características mais frequentemente mencionadas nos relatos dos viajantes que aportaram na colônia. Encontrou pelo menos quatro. Uma delas é o encantamento com o ambiente natural, a começar pelo clima.
A expectativa dos europeus era a de que a região do globo compreendida entre os trópicos fosse castigada por temperaturas tão elevadas que até poderiam impedir que homens vindos do norte se instalassem por aqui. É por isso que muitos se encantam ao encontrar uma realidade mais amena.
Foi o que expressou o francês Nicolas Barrés, que em 1576 chegou à Baía de Guanabara, onde registrou que “ao contrário do que diziam os antigos, parecia bastante temperada, de tal modo que os homens que estavam vestidos não precisavam se despir e os que estavam despidos não careceram de se cobrir”.
Aos poucos surgem menções ao calor. Em 1748, um anônimo francês em visita ao Rio afirmou que “o calor é bastante forte. Durante os meses que passamos na cidade, apesar de ser inverno, enfrentamos dias mais quentes do que no nosso verão”.
Além do clima, a fauna e a flora também são objeto de descrições empolgadas. O aventureiro inglês Flecknoe observou poeticamente que “as aves aqui são tão belas que poderíamos afirmar que a natureza aprendeu aqui seus matizes antes de pintar as nossas”.
Em 1768, outro inglês, o célebre capitão Cook, anotou que “os lugares mais selvagens são cobertos por uma grande quantidade de flores que, no tocante ao número e à beleza, superam aquelas dos jardins mais elegantes da Inglaterra”. Continue lendo em pdf.
Imagem: S. Salvador/Baya de Todos os Sanctos, de Claes Jansz e Hessel Gerritz, cerca de 1624
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